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só digo isso

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"É nois!"

Escrito por Tiago Soares

novembro 3, 2010 em 6:46 pm

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votando pra ir pro céu com josé serra

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Reta derradeira da campanha, sabe como é.

Momento dos candidatos correrem contra o tempo pra comer todos os salgados de boteco e beijar todas as criancinhas que couberem nas horas que faltam até o dia das urnas. Cada voto é um voto, agora é continuar seguindo as orientações do professor e trabalhar pra marcar um gol aí se Deus quiser.

E olha só: falando em Deus, Serra foi bater aquele bola esperta numa convenção das Assembleias de Deus. Era pra ser só um amistoso, mas o time tava nervoso e acabou apelando prumas caneladas.

***

Foi assim: um templo e um monte de pastores tirando a lição do Serra. Evento de campanha, gravado em video e tal.

Mas como a sabatina é longa e o video dá uma vergonha alheia colossal, dei uma garibada geral pra que o camarada leitor, a simpática leitora não tenham que passar pelo que passei. Então, se preferir, é só seguir no texto ali embaixo.

Lá vai.

 

Pastor nº 1: “Inicialmente, nossos questionamentos têm a ver com o PNDH-3. (…) O plano contém inúmeros avanços, porém nos preocupa a descriminalização do aborto baseando-se SIMPLESMENTE no direito das mulheres sobre seus corpos.

Nos preocupa também o casamento homossexual e o controle social da mídia que, com critérios ainda indefinidos, pode dificultar a propagação do Evangelho os meios de comunicação. (…)

 

Bom, pela pergunta do pastor já dá pra sacar que a igreja tava num clima gostoso de obscurantismo com muita cidadania. Afinal, tem que ver o que os candidatos pensam sobre essa coisa de mulher ser igual a homem. Ou sobre homossexuais terem direitos. Ou sobre a ilusão de que ALGUM bom jornalismo possa ser feito longe de redações ungidas. Sorte que estava lá um HOMEM BOM pra colocar as coisas no lugar e serenar os corações inquietos.

Todos de pé então:

 

Serra: “A gente pode não gostar de coisas que saem na imprensa. Mas dizer o que pode ou não ser publicado de acordo com o gosto de cada um leva à inexistência da liberdade de imprensa”

Ah, maravilha. Posso avisar o pessoal da CNT pra pegar aquela fita na sua casa então?

 

Serra: “Se o aborto é um direito humano, e quem é contra os direitos humanos é criminoso, então quem é contra o aborto é criminoso”

SOFISTICADO jogo de lógica, Irmão Serra. Minha vez: Se sofisma é um recurso de picareta, e picaretas geralmente são filhos da puta, sofisma é coisa de filho da puta. Procede?

 

Serra: “Ninguém propõe no Brasil um Estado religioso. o Estado é laico. (trololó trololó trololó) A nossa Constituição afirma ter sido elaborada sob a proteção de Deus. Eu votei nisso.”

Hein?!

 

Serra: “O PNDH-3 reflete as convicções de quem o escreveu. Não tenho dúvidas. E foi sancionado pela Presidência da República, e encaminhado pela Casa Civil, que era ocupada pela Dilma Rousseff”

Comunistas! Malditos comunistas!

***

Pastor nº 2: “A segunda pergunta diz respeito à Lei da Homofobia , que incrimina quem prega a Bíblia em todo seu conteúdo. (trololó trololó trololó) Se eleito, o senhor pretende aprovar esse projeto? Sim ou não? Se não, quais seriam os mecanismos, já que a outra candidata tem a maioria do Congresso?”

Sem comentários.

 

Serra: “Olha, NÃO. (salva TEMENTE de palmas) O projeto como está não pode ser aprovado porque passa a PERSEGUIR igrejas que têm posições a respeito do homossexualismo, como [por exemplo] a de que deve ser evitado. E elas têm todo o direito de fazer isso”

Certo. Pra começo de conversa, defina o que seria “evitar o homossexualismo”. Por exemplo, seria a igreja pedir a seus fieis que não contratassem gays? Que não passassem cantadas? Que obrigassem homossexuais a usar bebedouros próprios?

 

Serra: “Uma coisa é perseguir, montar grupos de extermínio, ou de violência contra os gays. Isso tem acontecido. Em São Paulo aconteceu uma vez. Isso é uma coisa”

Em São Paulo? Sério? Tipo, o estado que você GOVERNAVA e coisa?

 

Serra: “Outra [coisa] é fazer com que seja um crime semelhante ao do racismo a pregação de Igrejas contra as práticas homossexuais entre os seus fieis, na sociedade. Elas têm PLENO direito de fazer isso. Essa lei não dá” (aplausos PIOS)

Seguinte: uma igreja pregar contra o homossexualismo entre seus fieis já é feio. E muito, muito errado. Mas sempre há a possibilidade de que os/as atingidos/as tenham um momento de iluminação e bom senso e se pirulitem da congregação.

Agora, que negócio é esse de igreja “pregar contra tal prática na sociedade”? Tá louco rapá!? Qual parte de “Estado Laico” você não aprendeu?

E pior: a discriminação, caro Irmão da Mooca, é uma prática absoluta. Não importa quem você condena como gente de segunda classe. Se condenou, já era, passou recibo do preconceito.

A lógica da igualdade é isso mesmo: TODO MUNDO É IGUAL E MERECE OS MESMOS DIREITOS. E esse é o valor número um de qualquer civilização que se preze. A tal “igualdade seletiva” pra qual você bate palminha é um dos artifícios mais perversos inventados pela humanidade. Pergunta pro Mandela o que ele acha disso.

***

Pastor nº 3: “Minha pergunta é relacionada ao apoio do atual governo ao Irã. O povo de Deus, que pauta sua vida pela Palavra segundo a Bíblia Sagrada, tem uma relação ÍNTIMA com a nação de Israel em virtude de todas as profecias e as coisas prometidas para o país. Qual sua posição quanto ao apoio a Mahmoud Ahmadinejad, considerando que o Irã tem um regime ditatorial, antidemocrático, que permite a autoridade suprema aos Aiatolás, SUPOSTOS representantes de Deus na Terra, a respeito de seu desejo de EXTERMINAR a nação de Israel?”

É isso aí. Uma vez ouvi que o Brasil era um país que não tinha passado por guerras o suficiente. Já que é pra colocar essa comunistada indolente no prumo, melhor apelar pro tratamento de choque e mandar o povo pruma CRUZADA de uma vez.

E repare no modo como, na real, o que preocupa o pastor não é o fato do Irã ser um regime teocrático. O foda é ser um regime teocrático tocado por Aiatolás, esses “ SUPOSTOS representantes de Deus na Terra”. Afinal, é bacana meter o bedelho do Altíssimo na sociedade. O que pega é só garantir que o legislador da fé seja o autêntico.

E, claro, Serra mandaria Ahmadinejad plantar batata, porque é assim que se faz diplomacia e é pra isso que serve a “autodeterminação dos povos”.

***

E só sei que se tiver que fazer esse tipo de coisa pra ir pro Céu, vão rolar as labaredas.

 

Escrito por Tiago Soares

outubro 28, 2010 em 6:56 pm

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o grande atentado

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Pra você ver como são as coisas.

Ontem sai rapidinho pra almoçar e, quando voltei à labuta, PIPOCAVAM em meu computador notícias sobre um apedrejamento pra cima do Serra. Teria sido numa caminhada feita pelo tucano em Campo Grande, no Rio de Janeiro. Incidente de campanha, treta de militante se pegando na rua.

Aí eu já imaginei as cenas dramáticas de um José Serra ensanguentado, desnorteado, carregado por correligionários e tal. República em chamas.

Aí passaram uns minutos e o apedrejamento virou o arremesso de uma bobina de papel.

Aí a bobina de papel virou um rolo de fita crepe. De dois quilos.

E então a Globo, naquele serviço esperto à nação, divulgou as imagens do atentado.

Foi isso?

Tudo bem. É FEIO e ERRADO sair por aí arrumando briga na rua e jogando coisas nas pessoas. E se for pela militância, pior ainda. Mas, na boa, eu esperava mais de um hipocondriaco assumido como o Serra. Pô, que que é aquela passadinha de DEDO no cocuruto, ali onde a fita crepe teria realizado o sentido de sua existência? “Teria” porque, sabe como é, a Globo CORTOU o arremate derradeiro.

Mesmo assim: a cobertura do incidente era um tanto mais teatral que a própria teatralidade serrística.

***

Como na medicina e no jornalismo é sempre legal uma segunda opinião, fui ver o que o SBT falava do caso.

Ó, não é por nada não. Mas parece que a fita crepe (dois quilos), na real, era uma bolinha de papel. Que RICOCHETEIA na cabeça do Serra e tal.

Papelão geral. Pro Serra, que tenta faturar em cima de um incidente INEXISTENTE. Pra Globo, que tentou reconstruir o episódio numa edição marota que não resistiria ao escrutínio de um primeiranista de jornalismo. E pra geral militante, que não tem nada que sair no braço.

Agora, não dá pra negar que a atual campanha tucana, tocada a panfletos apócrifos e telefonemas anônimos, só alimenta esse clima beligerante. Lógico que isso não justifica qualquer violência, mas botar lenha na fogueira, como faz o Serra, é uma PUTA irresponsabilidade.

Quem semeia o ódio colhe bola de papel, meu chapa.

***

Para mais infos sobre a coisa toda, vale dar uma passada na Maria Frô.

Escrito por Tiago Soares

outubro 21, 2010 em 2:33 pm

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internet killed the video star

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O colossal camarada Álcio levantou essa bola, e vou fazer uma ou duas embaixadinhas antes de passar pra frente.

O Analismos Mimetistas trouxe dia desses uma análise bacana sobre a crise da indústria fonográfica. O Álcio, pra quem não sabe, é músico. Sua banda, a Sonic Volt, é bem das boas.

As sacadas de señor Fatso Volt são bem espertas. Isso porque ele vai no micro, e pensa o simples: como, afinal, isso afeta a relação entre público e bandas a partir de quem produz música? E qual o papel que resta aos conglomerados-midiáticos-do-mal nesse rolo todo?

Pois bem.

Eu não tenho banda, mas curto rock. Curto de um bom tantão mesmo. Quer dizer, sei na pele o que a gente sofria para descobrir sons novos até bem pouco tempo atrás. E me entendo com as dinâmicas sociais do compartilhamento musical.

Além disso, sou nerd.

E tenho um blog.

Então tenho direito a um pitaco nessa coisa toda.

Há um aspecto da dinâmica de compartilhamento que, na verdade, sempre esteve por aí. Não importa o que digam os arautos da super-highway-web-2.0*.

Quando era moleque, existia um circuito de compartilhamento de músicas que, embora lento no modo como acompanhava o andamento das coisas, era bastante estável. Funcionava assim: você tinha amigos que tinham amigos que gostavam de música, e sempre que alguém conseguia algo novo fazia questão de compartilhar com um camarada próximo. Você podia gravar uma fita k-7, ou podia simplesmente emprestar o álbum/cd, mas isso gerava um residual. Espalhava conhecimento.

Não foram poucas as vezes que, em casas de amigos, ouvi discos emprestados por gente que eu não conhecia. Do mesmo modo, só Deus sabe por onde andaram os álbuns que emprestei por aí.

Quer dizer, havia uma dinâmica de compartilhamento. Como hoje. O que não quer dizer que não tenham existido mudanças:

a) os circuitos de socialização digitais e suas novas relações de espaço-tempo transformaram as estruturas de compartilhamento musical, passando da progressão matemática à geométrica. Enquanto um disco emprestado alcançava um amigo, e o amigo do amigo, e o amigo do amigo do amigo, uma pasta cheia de mp3, disponibilizada em seu computador para compartilhamanto na internet, alcança vários amigos, e vários amigos dos amigos, e vários amigos dos amigos dos amigos.

b) a digitalização da música, bem como a diminuição de custos (tendendo a zero) na reprodução e aquisição de bens culturais, remanejou as linhas de ação e horizontes de lucro da indústria cultural (especialmente a musical). O modo como a música circula entre fãs é apenas uma dessas variáveis.

c) muda-se o alvo: de uma indústria voltada à produção de insumos, manufatura, divulgação e distribuição, vemos surgir uma operação voltada

    c1) ao mapeamento de mercados e delimitação de espaços para braços diversos de grupos industriais associados às corporações de mídia;

       c2) à “pesca” e cooptação de produtos culturais sedimentados (como no caso da banda do MySpace que, mesmo sem o auxílio da indústria, cria base de fãs grande e sólida, bem como espaço na imprensa cultural – tipo os Arctic Monkeys);

    c3) ao mercado de licenciamentos.

Nesse caso, a ampla circulação gratuita de bens culturais (especialmente música) entre comunidades de consumidores diversas torna-se, em tese, um dos pilares dessa nova estrutura industrial.

O novos meios de produção, distribuição e divulgação de produtos culturais oferecem, na real, um cenário de sonhos para qualquer major minimamente esperta e ágil. Pra começar, existem bandas com discos gravados, distribuídos online entre milhares de pessoas, em todo o Brasil (e olha que a Bananalândia é grande pra cacete). Hoje são muitos e muitos os músicos que contam com isso, e a custo bem baixo. Até bem pouco tempo, esse tipo de coisa tinha que ser bancada pela gravadora. Custava, e muito.

Imagine uma banda que bancou seu próprio disco/ep/single, e lançou músicas livres na web. Imagine que conseguiram, a partir de redes sociais online, espalhar a palavra sobre seu trabalho. Agora, imagine que, num mapeamento simples, a partir das bases de dado online, descobriu-se que o tal grupo faz rebuliço especialmente barulhento entre garotos e garotas das classes B, C e D, entre 16 e 21 anos, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Então uma major vai lá, faz a lição de casa e assina um contrato com os músicos.

Um braço da Corporação do Mal A, grupo indústrial que mantém a tal major, pensa em produzir um cereal matinal voltado a jovens de 16 a 21 anos, das classes B, C e D. Após breve negociação, lança uma enorme campanha publicitária utilizando músicas da banda de sua subsidiária-irmã. Por terem já desde o começo um bom mapeamento de mercado associado à ação publicitária e sua produção criativa, a operação toda custa apenas uma fração do que custaria se as frentes de ação partissem do zero.

Então, outro grupo industrial, a Corporação do Mal B, precisando alcançar esse exato público mas não tendo em quaisquer de suas subsidiárias de mídia um ato com os atributos da tal banda, acaba dando o braço a torcer e negociando com com a Corporação do Mal A o licenciamento de certas músicas para um filme/campanha publicitária.

Caso a tal banda necessária à ação de comunicação da Corporação do Mal B não constasse do catálogo de nenhuma major camarada, sem problema — existiria, ainda, a chance de rastrear produtos culturais independentes que orbitassem o grupo-alvo desejado e terceirizar o serviço, partindo para o licenciamento dessa ou aquela obra específica.

Seja como for, teria rolado algum bom dinheiro em qualquer dessas situações. E até onde saiba, é exatamente esse o sentido da existência de uma indústria. Claro, isso é capitalismo, então sempre algum setor vai perder razão de ser, e acabar chorando.

De todo modo, tudo indica que a indústria acabe se reestruturando, ainda que o tal choro apareça sempre que uma oportunidade de negócios esteja em risco. Não que chorar vá resolver muito – mas, sabe como é, pela lógica capitalista nunca se deve abrir mão de uma fonte de lucros antes de se tentar alguma saída, qualquer que seja. E esbravejar é uma delas.

Certo, eu falei e falei, mas nada de exemplos do mundo real.

À vida, então.

Conhece os Dirtbombs? Eles são uma de minhas bandas favoritas. Tocam um rock cru e sacolejante, e merecem recibo pela reinvenção de boa parte do garage rock do fim dos 90. Sem os caras dos Dirtbombs você não teria, sei lá, os White Stripes. E isso é um fato.

Os Dirtbombs sempre lançaram seus discos por gravadoras independentes. Eu mesmo descobri a banda ali por 2001, na web – estaria frito se dependesse do esquema de distribuição da In The Red ou da Sympathy for The Record Industry para ouvir seus álbuns.

Há mais ou menos dois anos, o Wal-Mart resolveu que precisava renovar sua imagem junto ao público jovem. A companhia via seu ethos atolado naquela coisa de “paraíso da dona-de-casa suburbana sem muita noção pra roupa”. E o que eles queriam, mesmo, eram os dólares dos bolsos de adolescentes e jovens adultos.

O que fez o Wal-Mart? Uma ação publicitária, claro.

A diferença é que a música de uma de suas peças publicitárias era “Trainwreck”. Um petardo deles, sim, dos Dirtbombs.

Na real, o Wal-Mart (melhor, a agência publicitária do Wal-Mart) tinha a faca e o queijo na mão. Precisavam de um artefato cultural que galvanizasse uma mensagem para seu seu público alvo, e encontraram uma banda prolífica, com esse exato perfil. Os Dirtbombs tinham discos circulando non-stop na web (é certo que fazem mais fãs pela internet do que pela venda direta de discos), ofereciam uma forte base de seguidores no exato nicho desejado pela companhia, e imprimiam rastros em comunidades online diversas, o que permitia que se calculasse seu impacto sobre este ou aquele grupo social.

O Wal-Mart tinha a “bala mágica”, o artefato teleguiado, pronto para atingir o público desejado.

Os Dirtbombs tinham nas mãos um bom negócio de licenciamento. Não é nada, não é nada, viraram atores da indústria. Não fossem os novos canais de mapeamento e difusão musical, duvido muito que algum dia entrassem no negócio dos cheques gordos.

Não que ache particularmente prazeroso ver uma de minhas bandas prediletas no comercial de uma corporação do mal. Apenas acho justo que façam um bom pé-de-meia. Afinal, a indústria cultural é isso aí: uma indústria.

Já eu, continuo ouvindo Dirtbombs. E quase não vou no Wal-Mart.

* Os arautos da super-highway-web-2.0 acreditam que a internet inventou a idéia de compartilhamento, o trabalho em rede, o Dip-Lik e a linha-burra.

Escrito por Tiago Soares

novembro 8, 2007 em 2:51 am

amanhecer dos mortos (ou “a escola romero de sociologia”)

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O amigo leitor já viu zumbis atacando?

Os mortos-vivos geralmente não têm grande vantagem até o povo sair correndo e berrando de um lado para o outro. Então a histeria impera, e carros são virados, e vitrines quebradas, e os viventes são alvo fácil.

Alertas aparecem na TV, a população é instruída a ficar em casa, o tecido da rotina é rompido. E o tempo passa, e passa, passa até o tal ordenamento disfuncional da sociedade tornar-se rotina ele próprio.

Neste fim de semana, células terroristas declararam guerra (sim, os ataques do PCC são terrorismo) contra o que resta do Estado nacional. E a surpresa se tornou terror que se tornou histeria que acabou travando o fluxo normal das vidas e das cidades.

Os zumbis ganharam o dia.

Escrito por Tiago Soares

maio 15, 2006 em 6:41 pm

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a verdade está lá fora

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Pode ser só impressão minha. Mas, ó:

aqui que o chofer no acidente que matou a princesa Diana era um informante da inteligência francesa.

O sujeito guiava o carro/despistava papparazzi do fenômeno pop da família real inglesa. E, veja só você — mesmo com essa responsabilidade nas costas, o rapaz lá bem gostava de tomar uma. É razoável pensar que, contratado pelo serviço secreto francês, seus hábitos fossem devidamente checados — etílicos, inclusive. Por que raios, então, deixar o espião bêbado dirigindo o carro da moça?

E se (veja bem, eu disse “se”) o plano francês fosse exatamente o de um acidente? Afinal, quer queira, quer não, quem emprestava algum lastro de popularidade para o herdeiro da coroa era Diana. Sem ela por perto, Charles perde um bom tanto da boa vontade dos notíciários — e um trono ocupado por uma Camilla Parker-Bowles sem qualquer contraponto é algo deveras desinteressante.

Seria isso tudo um grande plano francês para o enfraquecimento midiático da coroa inglesa? Hein, hein? Seria Diana a Franz Ferdinanda* do século 21? Seriam os martinis de seu chofer o motivo da III Guerra Mundial?

Seria eu entusiasmado demais por teorias da conspiração?

*Herdeiro do trono austro-húngaro, Franz (Francisco) Ferdinando, foi, em 1914, assassinado junto à sua esposa. O atentado é considerado por historiadores o estopim da I Guerra Mundial.

Escrito por Tiago Soares

fevereiro 26, 2006 em 11:26 pm

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a grande fábrica de miçangas pop

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A classe média precisa manter a pose. E, num país onde os setores médios afundam cada vez mais na areia movediça da classe-média-baixa, a arena última para a manutenção de sua eminência é, pelo visto, a cultural.

Veja a recepção de parte da imprensa ao show do U2, por exemplo. É verdade que no palco Bono joga para a torcida (bem, ele é um entertainer…), e que o messianismo do grupo resvala meio que na cafonice, mas, há que se concordar, o sujeito é um mestre absoluto do rock de arena. Eu, que não sou exatamente fã, tiro o chapéu para a banda, e admito que os rapazes lá merecem respeito pela invenção de boa parte das convenções do estilo, firulas para o público e messianismo cafona inclusos.

Para além disso, os caras têm uma eminência absurda sobre o rock das duas últimas décadas – seja com as bandas que seguiram seus passos, seja com as que renegaram. É verdade que se o U2 não existisse não teríamos coisas medonhas como Creed ou Linkin Park. Mas, também, não teríamos grupos cultuados — ou simplesmente bacanas — como Radiohead ou, sei lá, Foo Fighters. A construção dos circuitos de influência no rock são fluídos, não absolutos. É aquela velha história: é tudo um processo.

Ainda assim, o trato dispensado pela crônica especializada ao U2 foi, para dizer o mínimo, reticente (alguns diriam que cheio de má vontade, até). Os mimos, no caso, pareciam todos reservados ao Franz Ferdinand, a banda de abertura.

Nada contra o Franz Ferdinand. Sua música é, sim, deveras divertida e tal. Mas, noves fora o fato deles próprios darem passadas largas no caminho pavimentado pelo povo do Bono, sua aura pop-vanguardista é bunker certo para os gostos refinados da elite. Ao contrário do U2, que, em seu gigantismo, alcança e recebe ecos de uma cultura de massas mais popular, o FF, contido, apresenta-se refinado, articulado. Rapazes egressos da escola de Artes, que, atrás de seu pop grudento, costurariam camadas e camadas de sacadas da alta cultura. Quer dizer, pelo menos é essa a imagem que os especialistas em cultura pop (ah, vá!) costumam projetar sobre a banda.

Podem dizer o que for, mas, para mim, isso nada mais é que a construção deliberada de uma distância segura entre um setor médio que se imagina próximo da metrópole, hegemônico em sua construção/circulação do que seria “moderno” (FF), e o resto, um público visto como relegado ao obscurantismo de referências culturais consideradas cafonas e ultrapassadas (U2). Coisas destinadas a garantir sono tranquilo a uma certa classe média que, ainda que sem o mesmo dinheiro de antes, acalma-se na segurança de fronteiras sociais que continuariam, em parte, muito bem demarcadas – mesmo que pelo capital simbólico do bom gosto.

Escrito por Tiago Soares

fevereiro 22, 2006 em 1:36 am

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a geopolítica do super-vilão

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Uma catacumba. Paredes de pedra cobertas de musgo, iluminadas pelas tremeluzentes luzes de umas poucas tochas. Ao centro da câmara, de ponta cabeça, amarrada em correntes sobre um fosso de crocodilos, Condoleeza Rice.

Uma risada maligna ecoa. Ladeado de guardas cobertos em túnicas e turbantes, olhos injetados de ódio e sangue, ele surge. Ele, o infame nêmesis da cristandade. Juiz e carrasco dos excessos do Ocidente infiel. EOsama Bin Laden.

- Você pode acabar comigo, mas sua causa é perdida! - murmura Rice, nervosa. Fios de frio suor descem por sua face. Em seus olhos, a soberba dá lugar ao medo.

Bin Laden se aproxima. E retruca, solene:

- A jihad continuará forte, pelo poder de Alá. Mesmo com toda a barbárie e os atos repressivos tomados pelo exército dos EUA e seus agentes.*

A corrente que amarra Rice começa a descer, lentamente. Rumo aos crocodilos.

Em tom de voz baixo, algo alucinado, Bin Laden segue:

- E isso não é tudo. Os Mujahideen, com a graça de Alá, vêm burlando sistematicamente os procedimentos de segurança tomados pelos países opressores de sua aliança* – E grita: Não vê os atentados que temos provocado nas mais importantes capitais européias!?*

Rice continua descendo, mais e mais. Gaguejando, retruca:

- Você pode acabar comigo, mas nunca escapará dessa. Você sabe. A qualquer momento, George e nossos marines estarão aqui.

Osama nada responde. Apenas esfrega as mãos, saboreando sua vingança.

Uma explosão. Fogo, balas, gritos e fumaça por toda parte. Parede de pedras posta abaixo, surge sobre os escombros, metralhadora na mão, George W. Bush. E ele não está só. Pegos desprevenidos, os guardas de Bin Laden reagem, mas estão em desvantagem. Com uma faca de campanha entre os dentes, Donald Rumsfeld maneja sua pistola sem deixar feridos. Karl Rove grita, liderando a matança marine. Riscando o campo de fogo e morte como um furioso pêndulo, Batman** resgata Condy.

Protegido pelos poucos guardas sobreviventes, Bin Laden saca de sua túnica um pequeno controle remoto. Ao apertar de um botão, uma passagem secreta é aberta. Jetpack às costas, ele some, caminho estreito afora. De longe, sua voz ecoa, diabólica:

- Jurei somente viver livre! Ainda que sinta o amargo gosto da morte, não serei humilhado, nem cairei em qualquer ardil!*

Atrás dele, fecha-se a passagem. Os poucos guerreiros muçulmanos sobreviventes são alinhados contra a parede. Karl Rove finaliza o serviço. Abraçada a Bush, Rice tenta se recompor. Rumsfeld mede as catacumbas com uma trena. Nenhum sinal de Batman.

- Achei que seria meu fim - balbucia Rice.

- Nada tema, Condy – responde Bush. - Ninguém pode contra o poder do Senhor.

Bush saca uma garrafinha de scotch, daquelas de bolso. Satisfeito, toma um trago. O doce brinde à batalha vencida. Olhar perdido, voz firme, fala:

- Louvado seja o Senhor. Louvado seja o Senhor…

E toma outro gole.

___

* Frases retiradas de comunicado de Bin Laden divulgado hoje.

** Frank Miller é foda, mas podia passar sem essa.

Escrito por Tiago Soares

fevereiro 20, 2006 em 7:56 pm

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as legiões romanas passariam e passariam

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“Estava falando com uma família iraquiana, e a estrada (onde estávamos) começou a vibrar. Víamos uma gigantesca divisão de infantaria estadunidense passando por nós. Helicópteros Apache pairavam, e tanques M1A1 Abrams, veículos blindados, caminhões cheios de concreto e milhares e milhares de tropas, todas camufladas, rifles apontando feito porcos-espinhos. Sentei ao lado da estrada com essa família, tentando entender o que aquilo tudo significava. Quatro horas e meia, cinco horas depois, e o comboio ainda estava passando.

E amanheceu em mim a idéia de que, há 2000 anos, um pouco mais ao Oeste, eu estaria sentado ao lado da estrada vendo uma legião romana passar, sentindo a vibração dos pés dos centuriões. E percebi que se você é a única superpotência, como os EUA, você tem que projetar seu poder.”

Robert Fisk fala isso — e mais — em entrevista à Adbusters.

A íntegra, aqui

Escrito por Tiago Soares

janeiro 9, 2006 em 8:13 pm

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jingle bells riot

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Eu acredito no bom velhinho.

“Uma gangue de Papais Noéis bêbados levou o caos a Auckland, Nova Zelândia, atirando garrafas, roubando lojas e atacando guardas em protesto contra a comercialização do Natal.

Segundo Alex Dyer, porta voz do grupo Santanarchy (trocadilho em inglês com os termos Santa Claus e anarquia), o movimento teve início em San Francisco, em 1994. Desde então, já tocaram a baderna por EUA, Tóquio, Helsinque e Antartida”.

Do Guardian.

Escrito por Tiago Soares

dezembro 19, 2005 em 2:34 pm

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