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touch me i’m sick
Não sei o que pensa o amigo leitor, mas pelas bandas do grouchomarxista os Vines não sacodem mundos.
Seus discos costumam ser, no mínimo, irregulares. Além disso, são daqueles atos que nunca, mas nunca mesmo tiveram uma base de fãs antes da fama e fortuna.
Além disso, os caras se escoram no lance de serem “os Strokes da Austrália”. E sabe como é: sempre bom desconfiar dessas bandas vendidas como os White Stripes/Jets/Libertines* da Inglaterra/EUA/Suécia/etc.
A história de usarem o CID-10** na divulgação de seu último disco também não ajuda.
Pelo que entendi aqui, uma Síndrome de Asperger diagnosticada em seu guitar/vocal, Craig Nicholls, seria a motivação última para as massas correrem atrás do novo “Vision Valley”.
Os Vines têm três discos. Cada um, vendido dentro de um discurso de gravadora bem específico. O primeiro, “Highly Evolved”, com aquele papo de “os Strokes da Austrália”. O segundo, “Winning Days”, pelo fato de Nicholls literalmente quebrar tudo (repórteres, amplis, câmeras) durante a divulgação de “Highly Evolved”. Agora, lançado o terceiro disco, parece que a marquetagem ficará por conta dos problemas psiquiátricos do sujeito.
Segundo a bibliografia médica, a Síndrome de Asperger é definida como um
“Transtorno… caracterizado por uma alteração qualitativa das interações sociais recíprocas, semelhante à observada no autismo, com um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Ele se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados. As anomalias persistem freqüentemente na adolescência e idade adulta. O transtorno se acompanha por vezes de episódios psicóticos no início da idade adulta.
Psicopatia autística
Transtorno esquizóide da infância”***
Quer dizer, o rapaz é meio inábil socialmente. Um rockstar com quebradeiras em quartos de hotéis cientificamente garantidas. Lucro certo.
Resta o consolo de que com o remédio certo talvez ele pare de fazer aquele sonzinho palha.
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*Bandas escolhidas pelo fator hype.
**CID-10 é a sigla para Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, Décima Revisão.
***Do CID-10.
a grande fábrica de miçangas pop
A classe média precisa manter a pose. E, num país onde os setores médios afundam cada vez mais na areia movediça da classe-média-baixa, a arena última para a manutenção de sua eminência é, pelo visto, a cultural.
Veja a recepção de parte da imprensa ao show do U2, por exemplo. É verdade que no palco Bono joga para a torcida (bem, ele é um entertainer…), e que o messianismo do grupo resvala meio que na cafonice, mas, há que se concordar, o sujeito é um mestre absoluto do rock de arena. Eu, que não sou exatamente fã, tiro o chapéu para a banda, e admito que os rapazes lá merecem respeito pela invenção de boa parte das convenções do estilo, firulas para o público e messianismo cafona inclusos.
Para além disso, os caras têm uma eminência absurda sobre o rock das duas últimas décadas – seja com as bandas que seguiram seus passos, seja com as que renegaram. É verdade que se o U2 não existisse não teríamos coisas medonhas como Creed ou Linkin Park. Mas, também, não teríamos grupos cultuados — ou simplesmente bacanas — como Radiohead ou, sei lá, Foo Fighters. A construção dos circuitos de influência no rock são fluídos, não absolutos. É aquela velha história: é tudo um processo.
Ainda assim, o trato dispensado pela crônica especializada ao U2 foi, para dizer o mínimo, reticente (alguns diriam que cheio de má vontade, até). Os mimos, no caso, pareciam todos reservados ao Franz Ferdinand, a banda de abertura.
Nada contra o Franz Ferdinand. Sua música é, sim, deveras divertida e tal. Mas, noves fora o fato deles próprios darem passadas largas no caminho pavimentado pelo povo do Bono, sua aura pop-vanguardista é bunker certo para os gostos refinados da elite. Ao contrário do U2, que, em seu gigantismo, alcança e recebe ecos de uma cultura de massas mais popular, o FF, contido, apresenta-se refinado, articulado. Rapazes egressos da escola de Artes, que, atrás de seu pop grudento, costurariam camadas e camadas de sacadas da alta cultura. Quer dizer, pelo menos é essa a imagem que os especialistas em cultura pop (ah, vá!) costumam projetar sobre a banda.
Podem dizer o que for, mas, para mim, isso nada mais é que a construção deliberada de uma distância segura entre um setor médio que se imagina próximo da metrópole, hegemônico em sua construção/circulação do que seria “moderno” (FF), e o resto, um público visto como relegado ao obscurantismo de referências culturais consideradas cafonas e ultrapassadas (U2). Coisas destinadas a garantir sono tranquilo a uma certa classe média que, ainda que sem o mesmo dinheiro de antes, acalma-se na segurança de fronteiras sociais que continuariam, em parte, muito bem demarcadas – mesmo que pelo capital simbólico do bom gosto.
a jovem guarda não errou
Reza a lenda que foi Ronnie Von quem introduziu os Mutantes à psicodelia. Coisa difícil de acreditar, entretido que tio Von parece hoje entre receitas de rocambole de doce de leite e dicas sobre vinhos de boa safra.
A verdade, por absurda que pareça, é que Ronnie Von foi autor de uns bons petardos psicodélicos, entre o meio e o fim dos 60. E, sim, os Mutantes meio que começaram como sua banda de apoio, lá por 66.
Se hoje ele é um senhor canastrão cheio de piadas ruins, na época do tropicalismo o homem era um dínamo criativo. Seus flertes tropicalistas têm óbvia influência sobre o que veio em seguida — pra se ter uma idéia, os Baobás, banda que acompanha Ronnie em “Ronnie Von“, de 68, tocaram com Caetano logo depois. Sério. (Em tempo: vem daí a conexão Mutantes-Liminha – este, à época, baixista dos Baobás).
E, na real — qualquer pessoa que um dia tenha cantado “sinto a brasa se apagando, os marcianos vêm chegando” merece algum crédito.