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onde nenhum clichê jamais esteve

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A pós-modernidade é meio que o reduto dos picaretas. Problemas no encadeamento de idéias? Conceitualização artística frouxa? Falta de noção pura e simples? É só apelar para um “ah, mas minha obra é essa coisa pós-moderna”, que sempre há quem acredite.

Mas, olha só – às vezes, o pós-moderno até que funciona.

Pegue Lost, por exemplo.

À primeira vista, Lost não parece muito mais que um apanhado de narrativas clichês, sobre personagens clichês, num cenário extra, extra clichê. E é tudo isso, sem dúvida. O segredo é: clichês de onde?

Lost parte da seguinte premissa: um vôo transatlântico tem uns problemas, com o avião partido ao meio e seus passageiros aterrisados à força numa ilha perdida no meio do Pacífico. Assombrados pelo trauma e pelo medo, os sobreviventes tentam se organizar e sobreviver enquanto esperam pelo possível resgate. Claro, todos são assombrados por fantasmas do passado, e a ilha vai se mostrar cheia de esquisitices, com cultos malucos, misticismo, bunkers, armas e drogas por todos os lados, essas coisas.

Tudo bem clichê, como dito ali em cima.

O segredo de Lost (e aí entra a história da pós-modernidade) é que a série consegue, lindamente, misturar, numa narrativa descontínua, clichês de todo e qualquer gênero da indústria do entretenimento (rupturas temporais, há que se lembrar, são um belo clichê pós-moderno). Literatura popular, quadrinhos, filmes B, novelas de TV, videogames, música pop, cabe tudo. A equipe do grouchomarxista não chegou a ver todos os episódios, mas, do que conseguiu assistir, a melhor definição a que chegou foi a de uma mistura de Robinson Crusoé + O Senhor das Moscas + Dallas + Silent Hill + filmes do Romero + Arquivo X + eventos Marvel + Resident Evil + mensagens ocultas em disco de vinil + umas outras referências aí.

O ponto de partida da ilha deserta, velho favorito da literatura de aventura, se encontra com as convencionais intrigas e dramas pessoais de um sem número de personagens, que se vêem no meio de teorias da conspiração bizarras e enfrentando “quase humanos” com os quais a relação não é outra senão a de aniquilação mútua. Episódios distintos conseguem se desenrolar em espaço-tempo idêntico ou diretamente relacionado ao de outros capítulos — numa dinâmica muito parecida com a dos eventos que, nos quadrinhos, espalham desdobramentos simultâneos de uma mesma história em vários títulos. Músicas pop obscuras flutuam pela trama prometendo mensagens secretas, e o ritmo e visual narrativo é claramente calcado nos videogames (uma das protagonistas da segunda temporada, Michelle Rodriguez, é velha conhecida de games como Driv3r, e de adaptações cinematográficas de games, como Resident Evil).

Na ilha tem pra todo mundo, da mãe viciada em canastrões de novelas ao pai chegado em filme de tiro, com uma pipoquinha sobrando para o filho nerd e a caçula que sonha com romances água-com-açucar. Tudo ao mesmo tempo agora, como um bom clichê pós-moderno deve ser.

Escrito por Tiago Soares

março 18, 2006 em 7:18 am

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