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a era das revoluções do sofá
Às vezes a semana começa com o noticiário em chamas, é abrir o jornal e ouvir trombetas e as ruas colocando as rodas da história pra girar. Não importa muito o motivo — crises econômicas, desastres ambientais, ataques de ninjas –, é nessas horas que a imprensa organiza a bagunça de informações e presta aquele serviço esperto pra sociedade.
Segunda-feira agora (11/4), por exemplo, o Brasil parou. O noticiário político se mobilizou e comunicou à nação que FHC teria no forno um artigo pra resolver toda essa parada aí da oposição andar levando sova do PT.
O louco é que todas as notas e reportagens e análises sobre o artigo falam, na real, de algo que até então não havia circulado nos espaços de informação tradicionais. A única coisa dita era que o texto sairia alguns dias depois, na mesma semana, na Folha. E, logo mais, numa outra publicação, a revista Interesse Nacional.
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É meio estranho ver redações dando pitacos sobre uma parada que ainda não teria visto a luz dos jornais. Normalmente, antes de cair no debate público, um texto desses faz um percurso que passa, obrigatoriamente, pela circulação nos veículos de comunicação tradicionais. Para além do registro e investigação dos fatos do mundo, o trabalho da imprensa como organizadora social tem a ver, também, com a construção de espaços de credibilidade que assentem as ideias que disputam o dia. Há quem diga que, numa sociedade vidrada no poder que os veículos de comunicação projetam, uma ideia só é uma ideia depois de carimbada pela imprensa.
Na verdade, embora os jornais não avisassem, o artigo de FHC já andava circulando na miuda. Desde a mesma segunda-feira, o povo que curte uma sociologia efeagáceana podia ler o texto no Blog do Noblat, que teria “vazado” a íntegra e furado geral. Dá pra acreditar que o artigo já estivesse rolando nas redações por aí e o Noblat tenha só chutado a bola quicando na pequena área. Mas na real é muito mais bacana enfiar uma teoria de conspiração no meio.
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Olha só: um dos pontos centrais da argumentação de FHC gira em torno do PSDB assumir aquele espírito leite-com-pera batuta, deixar de lado a disputa pelo voto do povão e partir com tudo pra cima da “nova classe média”. O que, se entendi direito, em parte se arrumaria com a reestruturação dos partidos e das organizações civis como agremiações no ciberespaço, num esforço pra conquistar corações e mentes da galera que anda tirando uma grana extra e fica o dia inteiro nas redes sociais, se acabando no Twitter e no Yahoo Respostas.
Tipo, rua já era. O futuro é a revolução do sofá.
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A verdade é que FHC tá todo animadão em disputar politicamente o ciberespaço. Coisa na qual dá uma dentro – se para as massas as formulações ideológicas usualmente se realizam nos veículos de mídia tradicionais, é na internet que a disputa come solta e a informação é circulada e desconstruída em primeira mão. Não à toa, ele tá se puxando pra colocar na rua um site juntando os formuladores da oposição, numa tentativa de volume pro projeto tucano nos espaços de debate online.
Nesse sentido, o “vazamento” de seu artigo pelo Blog do Noblat (risco de barrigada e tudo) talvez seja um laboratório dessa nova estratégia. Se encaixaria de um tanto no defendido por FHC: ao mesmo tempo que a tal nova classe média seria cooptada discutindo o texto num blog (e o multiplicando a partir daí), os jornalistas bateriam o bumbo e empedrariam a proposta no debate público, deixando mais pra frente sua publicação pelos veículos tradicionais — com aquele carimbo simbólico de “ideia oficialmente em discussão” e tal.
Claro que se o artigo não falasse tanta groselha e não levasse tanto pau talvez o plano funcionasse melhor.
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Só pra constar: FHC é chapa do Manuel Castells, um dos all stars ideólogos da nova sociedade da informação.
a hora e a vez do fascismo leite-com-pera
Esse negócio de misturar política com religião nunca deu certo.
Foi justamente porque a treta reinava e o rei e o papa mandavam e desmandavam que, lá no século XVII, alguns visionários acharam melhor separar a coisa toda: Estado prum lado, igreja pro outro. Porque se o poder político é, em algum grau, a negociação de medos e desejos públicos, colocar o Altíssimo na coisa toda é apelar.
Não à toa, alguns grupos políticos, em situações extremas para a tomada do poder, apelam pra carteirada sagrada.
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Povo tucano, sinto muito, mas é o seguinte: a campanha presidencial de José Serra, ao embaralhar política e religião, esfrega as mãos num protofascismo sem vergonha.
Uma coisa é o sujeito curtir uma privatização e um Estado mínimo, defender a política social do cada um com seus problema e achar que pobre tem mais é que ganhar pouco e morar longe. E aí aparecer um candidato de direita que defende tudo isso de forma aberta e dentro de um discurso e de um projeto minimamente estruturado, e a geral reaça votar no cara.
Outra parada BEM diferente é um político tentar ganhar corpo em cima de um discurso difuso, misturando na coqueteleira medos públicos e pitacos comportamentais. E apontando o dedo para algum grupo em cima do qual, convenientemente, acaba despejada a culpa dos problemas da vez.
Um exemplo: você, leitor de esquerda, leitora progressista, tenta debater sobre corrupção com algum fã do Reinaldo Azevedo. Aí rola até aquela boa vontade com o possível déficit cognitivo alheio (qualé, o cara é leitor do Tio Rei) e você tenta levantar um ou dois pontos para uma argumentação pontual, bem simplinha. Só pra, na sequência, receber do interlocutor um raivoso “você é de esquerda e tá em alguma boquinha!”, ou um “petista é tudo assim mentiroso”.
Esse tipo de coisa já rolou comigo. Mais de uma vez. E tudo bem, todo mundo tem o direito de ser idiota.
O que ferra é que, mais que tosca, esse tipo de relação é a completa erosão da política como hábito civilizatório. Em vez de dois lados defensores de projetos e ideologias distintas, você tem uma fatia do eleitorado reduzindo o debate ao exercício do preconceito raivoso (“petista/preto/sindicalista/bicha/mulher é tudo assim”), numa antesala da caça às bruxas. Porque se algum grupo é composto por gente dominada por algum vício e esse vício é responsável pelos problemas da nação, é só dar um sumiço nesse pessoal que a coisa tá resolvida.
Mas isso não surge do nada. Para vender esse tipo de ideia é necessário um trabalho de longo prazo, sistemático. É preciso martelar e martelar e martelar de novo, até que o conceito se descole de qualquer racionalização e contato com a realidade, e empedre na cabeça do infeliz. Antigamente, os ditadores faziam isso com manifestos e documentos apócrifos, inventados na cara dura. Hoje fazem com spams. Mas o princípio é basicamente igual.
Foi um longo caminho, dos Protocolos dos Sábios do Sião aos emails sobre a “Dilma terrorista”. E o que reina é aquele discurso meio padrão na construção de todo regime fascista e totalitário, da Rússia dos czares ao nazismo, passando pelas ditaduras latinoamericanas. Muda o inimigo da vez, mas a raiva e o preconceito são os mesmos.
A abolição da política pela cultura da força é um clichê fascista. Mas isso não surge do nada, é alimentado. A questão é: quem alimenta?
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Moro na zona oeste de São Paulo, que é tipo o epicentro do conservatorismo bandeirante. E nas conversas em padarias e botecos percebi que a tática serrista de fúria e areia nos olhos anda servindo pra legitimar a intimidação como ferramenta eleitoral. É só o cidadão dizer que vota na Dilma pra despertar olhares de ódio no povo da redondeza, geralmente acompanhados da total desqualificação de sua opinião partidária. Comigo mesmo isso aconteceu algumas vezes, num movimento que culmina com todos do recinto se esforçando ao máximo para fingir que não existo. O que seria até bacana, se o feitiço geralmente não acabasse na hora de pagar a conta.
Como sou um sujeito de esquerda e a militância é o maior barato, venho tentando agitar uma ou outra ações de campanha pra participar e marcar posição. E parte disso é garantir que em todas minhas aparições públicas eu esteja com alguma peça de campanha num lugar visível. As reações são curiosas.
A maioria do povo engravatado leite-com-pera costuma me olhar com algo entre perplexidade e raiva. Tipo, “como assim um cara da Pompéia vota naqueles petralhas e ASSUME?!”. É uma vibração meio traidor do movimento, tá ligado/a?
Agora, a parte bacana disso tudo compensa de um tantão os olhares enviesados. Porque tem um monte de gente que ao avistar o adesivo da Dilma dá um sorriso cúmplice, puxa papo, mostra um certo alívio ao perceber que, apesar da intimidação, o eleitorado do PT tá por aí. E faz questão de declarar seu voto e faz campanha numa boa (aê compas: é por isso que é importante militar e fazer ALGUMA COISA).
E se os gerentes normalmente dão aquela olhada de soslaio, os balconistas e garçons são deveras simpáticos. O que só me ajuda a ter mais certeza de que estou do lado certo.