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só digo isso
o grande atentado
Pra você ver como são as coisas.
Ontem sai rapidinho pra almoçar e, quando voltei à labuta, PIPOCAVAM em meu computador notícias sobre um apedrejamento pra cima do Serra. Teria sido numa caminhada feita pelo tucano em Campo Grande, no Rio de Janeiro. Incidente de campanha, treta de militante se pegando na rua.
Aí eu já imaginei as cenas dramáticas de um José Serra ensanguentado, desnorteado, carregado por correligionários e tal. República em chamas.
Aí passaram uns minutos e o apedrejamento virou o arremesso de uma bobina de papel.
Aí a bobina de papel virou um rolo de fita crepe. De dois quilos.
E então a Globo, naquele serviço esperto à nação, divulgou as imagens do atentado.
Foi isso?
Tudo bem. É FEIO e ERRADO sair por aí arrumando briga na rua e jogando coisas nas pessoas. E se for pela militância, pior ainda. Mas, na boa, eu esperava mais de um hipocondriaco assumido como o Serra. Pô, que que é aquela passadinha de DEDO no cocuruto, ali onde a fita crepe teria realizado o sentido de sua existência? “Teria” porque, sabe como é, a Globo CORTOU o arremate derradeiro.
Mesmo assim: a cobertura do incidente era um tanto mais teatral que a própria teatralidade serrística.
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Como na medicina e no jornalismo é sempre legal uma segunda opinião, fui ver o que o SBT falava do caso.
Ó, não é por nada não. Mas parece que a fita crepe (dois quilos), na real, era uma bolinha de papel. Que RICOCHETEIA na cabeça do Serra e tal.
Papelão geral. Pro Serra, que tenta faturar em cima de um incidente INEXISTENTE. Pra Globo, que tentou reconstruir o episódio numa edição marota que não resistiria ao escrutínio de um primeiranista de jornalismo. E pra geral militante, que não tem nada que sair no braço.
Agora, não dá pra negar que a atual campanha tucana, tocada a panfletos apócrifos e telefonemas anônimos, só alimenta esse clima beligerante. Lógico que isso não justifica qualquer violência, mas botar lenha na fogueira, como faz o Serra, é uma PUTA irresponsabilidade.
Quem semeia o ódio colhe bola de papel, meu chapa.
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Para mais infos sobre a coisa toda, vale dar uma passada na Maria Frô.
a hora e a vez do fascismo leite-com-pera
Esse negócio de misturar política com religião nunca deu certo.
Foi justamente porque a treta reinava e o rei e o papa mandavam e desmandavam que, lá no século XVII, alguns visionários acharam melhor separar a coisa toda: Estado prum lado, igreja pro outro. Porque se o poder político é, em algum grau, a negociação de medos e desejos públicos, colocar o Altíssimo na coisa toda é apelar.
Não à toa, alguns grupos políticos, em situações extremas para a tomada do poder, apelam pra carteirada sagrada.
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Povo tucano, sinto muito, mas é o seguinte: a campanha presidencial de José Serra, ao embaralhar política e religião, esfrega as mãos num protofascismo sem vergonha.
Uma coisa é o sujeito curtir uma privatização e um Estado mínimo, defender a política social do cada um com seus problema e achar que pobre tem mais é que ganhar pouco e morar longe. E aí aparecer um candidato de direita que defende tudo isso de forma aberta e dentro de um discurso e de um projeto minimamente estruturado, e a geral reaça votar no cara.
Outra parada BEM diferente é um político tentar ganhar corpo em cima de um discurso difuso, misturando na coqueteleira medos públicos e pitacos comportamentais. E apontando o dedo para algum grupo em cima do qual, convenientemente, acaba despejada a culpa dos problemas da vez.
Um exemplo: você, leitor de esquerda, leitora progressista, tenta debater sobre corrupção com algum fã do Reinaldo Azevedo. Aí rola até aquela boa vontade com o possível déficit cognitivo alheio (qualé, o cara é leitor do Tio Rei) e você tenta levantar um ou dois pontos para uma argumentação pontual, bem simplinha. Só pra, na sequência, receber do interlocutor um raivoso “você é de esquerda e tá em alguma boquinha!”, ou um “petista é tudo assim mentiroso”.
Esse tipo de coisa já rolou comigo. Mais de uma vez. E tudo bem, todo mundo tem o direito de ser idiota.
O que ferra é que, mais que tosca, esse tipo de relação é a completa erosão da política como hábito civilizatório. Em vez de dois lados defensores de projetos e ideologias distintas, você tem uma fatia do eleitorado reduzindo o debate ao exercício do preconceito raivoso (“petista/preto/sindicalista/bicha/mulher é tudo assim”), numa antesala da caça às bruxas. Porque se algum grupo é composto por gente dominada por algum vício e esse vício é responsável pelos problemas da nação, é só dar um sumiço nesse pessoal que a coisa tá resolvida.
Mas isso não surge do nada. Para vender esse tipo de ideia é necessário um trabalho de longo prazo, sistemático. É preciso martelar e martelar e martelar de novo, até que o conceito se descole de qualquer racionalização e contato com a realidade, e empedre na cabeça do infeliz. Antigamente, os ditadores faziam isso com manifestos e documentos apócrifos, inventados na cara dura. Hoje fazem com spams. Mas o princípio é basicamente igual.
Foi um longo caminho, dos Protocolos dos Sábios do Sião aos emails sobre a “Dilma terrorista”. E o que reina é aquele discurso meio padrão na construção de todo regime fascista e totalitário, da Rússia dos czares ao nazismo, passando pelas ditaduras latinoamericanas. Muda o inimigo da vez, mas a raiva e o preconceito são os mesmos.
A abolição da política pela cultura da força é um clichê fascista. Mas isso não surge do nada, é alimentado. A questão é: quem alimenta?
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Moro na zona oeste de São Paulo, que é tipo o epicentro do conservatorismo bandeirante. E nas conversas em padarias e botecos percebi que a tática serrista de fúria e areia nos olhos anda servindo pra legitimar a intimidação como ferramenta eleitoral. É só o cidadão dizer que vota na Dilma pra despertar olhares de ódio no povo da redondeza, geralmente acompanhados da total desqualificação de sua opinião partidária. Comigo mesmo isso aconteceu algumas vezes, num movimento que culmina com todos do recinto se esforçando ao máximo para fingir que não existo. O que seria até bacana, se o feitiço geralmente não acabasse na hora de pagar a conta.
Como sou um sujeito de esquerda e a militância é o maior barato, venho tentando agitar uma ou outra ações de campanha pra participar e marcar posição. E parte disso é garantir que em todas minhas aparições públicas eu esteja com alguma peça de campanha num lugar visível. As reações são curiosas.
A maioria do povo engravatado leite-com-pera costuma me olhar com algo entre perplexidade e raiva. Tipo, “como assim um cara da Pompéia vota naqueles petralhas e ASSUME?!”. É uma vibração meio traidor do movimento, tá ligado/a?
Agora, a parte bacana disso tudo compensa de um tantão os olhares enviesados. Porque tem um monte de gente que ao avistar o adesivo da Dilma dá um sorriso cúmplice, puxa papo, mostra um certo alívio ao perceber que, apesar da intimidação, o eleitorado do PT tá por aí. E faz questão de declarar seu voto e faz campanha numa boa (aê compas: é por isso que é importante militar e fazer ALGUMA COISA).
E se os gerentes normalmente dão aquela olhada de soslaio, os balconistas e garçons são deveras simpáticos. O que só me ajuda a ter mais certeza de que estou do lado certo.
