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brincadeira do copo

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E então finalmente vi Atividade Paranormal.

Basicamente, é a história de um casal que investiga com uma câmera de video uns fenômenos esquisitos acontecendo em sua casa. Como em outras coisas do estilo “filmagem encontrada” (Canibal Holocausto, A Bruxa de Blair, Rec), a força do filme vem da narrativa em primeira pessoa, com câmera subjetiva balançante e campo de visão cuidadosamente restrito. Você não sabe nem vê muito mais que os personagens. Manja aquele “Cuidado! Atrás de você!” que o povo curte berrar no cinema? Então, nesse filme não rola. Porque, quando acontece, a treta é atrás de VOCÊ.

Até nas horas em que a câmera fica parada, filmando o nada, esperando alguma coisa, não há a sensação de onipresença, a segurança do espectador privilegiado. Além de vivido, tudo ali foi VISTO pelos protagonistas, e daquele mesmo jeito. Não tem muito o que fazer. O que, na verdade, só aumenta a tensão – porque sempre se sabe que alguma coisa não muito bacana vai rolar.

O que chama a atenção é que o que se passa por novidade formal, na verdade, não é muito mais que uma boa aplicação de premissas clássicas do terror. Claro, há umas sacadas aí (e o fato do diretor Oren Peli ter trabalhado como designer de games explica alguma coisa). Mas o filme, como narrativa e construção, não cai muito longe do feito por Bram Stoker em Dracula.

Tio Stoker fez um diário imaginado em papel. O cara de Atividade Paranormal fez um video diário digital, permeado pela linguagem online. Do mesmo modo que em Drácula, o motor narrativo está na própria a documentação e pesquisa do processo, na informação cúmplice a empurrar os personagens, nos pontos falsos que vão se resolvendo com a escalada da tensão. O lance – e aí fica o pulo do gato – é que, em ambos os casos, é o próprio diário, no fim das contas, que dispara a ascensão do monstro.

Não sei se o diretor fez de caso pensado. Mas, sabe como é, essas coisas tão por aí.

Dito isso tudo, Atividade Paranormal é um filme que, no fim, funciona até melhor no computador. E visto sozinho. Como um video indicado e baixado no boca a boca, na total de cumplicidade, como são feitas as lendas urbanas. Porque a graça, mais que testemunhar o povo se dando mal, está na impressão de ter se mexido com algo que não se devia. Como uma brincadeira do copo mal feita.

Escrito por Tiago Soares

janeiro 12, 2010 em 12:12 pm

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o horror, o horror (ou “por que filmes de zumbi são o que há”)

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Talvez tenha a ver com a falta de fé no processo civilizatório, com o estrago causado pela colonização e as guerras e as criancinhas famintas. Talvez seja o manto do fim do mundo se estendendo sobre o pessoal de pouca fé. Talvez a humanidade simplesmente não funcione. Vai saber. O fato é que num mundo onde o jornal do café da manhã te saúda com velhinhas acorrentadas e desmoronamentos em bairros miseráveis, qualquer coisa que pretenda te fazer pular da cadeira tem que ter a temperatura um pouco mais alta que o normal.

Não que tenha sido assim desde sempre. Faz tempo que o termostato vem subindo. Levamos, sei lá, uns dois séculos até a conta do gás começar a preocupar. E do mal puro, mágico, arquetípico, sedimentado – na Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, e adelante no Dracula de Bram Stoker e no Chthulhu de H. P. Lovecraft – passamos ao horror domesticado pela ciência. Construímos o inferno e sua falta de sentido nas trincheiras, bombas atômicas e campos de concentração das Grandes Guerras.

Depois que a humanidade inventou sua própria narrativa do fim do mundo – assim, quase de brincadeira (afinal, continuamos todos aqui) – o horror, talvez numa mostra de domínio da ciência sobre os terrores visíveis e invisíveis, some. Até o fim dos anos 60, o jogo parece reduzido ao medo do experimento científico que deu errado, ou à própria cabeça de uma humanidade que não andou se comportando muito bem. Mas nem todas as aranhas gigantes do mundo e psicopatas catalogados deram fim à nostalgia do tempo em que os calafrios não precisavam fazer sentido, quando agiam a serviço do mito, nos lembrando de tomar cuidado com as coisas que se escondiam no escuro. E não nos esquecíamos daqueles contos de antigamente, quando o horror era apenas fantástico e nos lembrava de grandes possibilidades esquecidas.

Talvez a história tenha virado nos anos 60 com a onda oriental-mística dos hippies, quando a teoria esotérica encontrou a psicologia e nos fez lembrar do que achávamos tão legal no Mr. Hyde de R. L. Stevenson. Do mesmo modo como em O médico e o monstro o estrago é causado pelo encontro da medicina com doutrinas mágicas vitorianas, coisas como O exorcista e O bebê de Rosemary têm seu motor no casamento do misticismo com a psicologia. O horror técnico, da máquina que não funciona, de cérebros e reatores nucleares descalibrados, dá um passinho atrás. Voltamos a nos fascinar com o incompreensível por si só. Com o que não é do nosso mundo e pronto.

É curioso que, de mãos dadas com o medo místico dos anos 60 e 70, andasse o horror natural. As convulsões de mundos invisíveis parecem nos lembrar, em obras como Tubarão – e em seu primo, o filme catástrofe –, do medo do nosso próprio mundo. Como se nossa impotência diante dos desígnios ocultos nos despertassem para o fantástico e para a aparente falta de sentido gestada pela natureza.

Como consequência extrema disso tudo, daria até pra arriscar um subproduto extra, o terror social. Ali, o medo seria alimentado também por um outro mundo – agora, alimentado pelo descompasso de costumes. Em vez do fantástico, a selvageria que se esconderia nos pontos cegos da civilização, fora do espectro urbano. Como nas famílias de caipiras esquisitões de Spider Baby e o Massacre da serra elétrica.

Daí, não demorou para que tudo pulasse à matança slasher; à narrativa sobre psicopatas despida de leitura sobre motivos ou consequências, na total falência do mito. Na estrita contagem de machadadas por tempo percorrido, corpos empilhados como garantia de eficiência. Sem curiosidade, sem indagações, sem fantasia. Medo sob encomenda, a vitória da cultura da fábrica.

Claro, a história não para por aí. Dos anos 80 pra cá, tudo se misturou de um bom tanto. O terror místico se casou com o slasher, o horror natural usa gatilhos psicológicos, a ciência que deu errado desvela fantasmas. E apesar de às vezes nos reaproximarmos dos clássicos, a fantasia deu lugar ao entretenimento dos sustos previsíveis – ou ao puro sadismo. Nosso domínio dos códigos do horror nos deixou cansados, insensíveis e céticos. Talvez esteja aí um dos motivos da ascensão do torror oriental – nosso desconhecimento da cultura dos povos do outro lado do mundo nos deixa livres para sentirmos medo, e simplesmente imaginar. No descobrimento dos temores alheios, mapeamos possibilidades, especulamos novos mundos. Marco Polo deve ter se sentido mais ou menos assim.

Escrito por Tiago Soares

novembro 24, 2009 em 8:40 pm

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