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polegares para cima, 2010
Então o estupendo grouchomarxista faz sua primeira lista de melhores discos do ano.
Agora, é aquilo: não ouvi todos os álbuns de 2010. E a escolha tem mais a ver com minha impressão que qualquer coisa.
Até porque a maior parte do que escutei este ano, na real, é parada mais antiga.
E a verdade é que, vendo aqui, estes são os únicos discos de 2010 que sobreviveram no meu HD depois de três audições ou menos.
E ao chacoalhar de quadris então:
01. Ty Segall – Melted
02. The Intelligence – Males
03. Wavves – King of the Beach
04. Harlem – Hippies
05. The Hotrats – Turn Ons
06. Garotas Suecas – Escaldante Banda
07. The Limiñanas - The Limiñanas
08. Golden Triangle – Double Jointer
09. White Mystery – White Mystery
10. Wounded Lion - Wounded Lion
11. Black Mountain – Wilderness Heart
12. Black Keys – Brothers
13. Emicida - Emicídio
14. Mombojó – Amigo do Tempo
15. Girl Talk – All Day
16. Miranda Kassin e Andre Frateschi – Hits do Underground
17. Miles Kurosky – The Desert of Shallow Effects
18. Crocodiles – Sleep Forever
19. Pata de Elefante - Na Cidade
20. Woven Bones – In and Out and Back Again
*Depois faço uma lista de “Coisas classe de anos passados escutadas em 2010″
o fim do mundo é logo ali
Sexta-feira. Hora do café. Folha de S.Paulo, página dois. Fernando Barros e Silva, usando como gancho a paródia lulistica do novo comercial do Neve (o papel higiênico), joga na mesa a ideia de que se Lula é esculachado, é porque não se comporta bem.
Ah, a preocupação com a República, esse velho costume do brasileiro de bem. É, é bom respeitar o presidente e as instituições. Agora, se o negócio é esculacho, não precisava ir tão longe. Umas páginas adiante, o líder eleito da nação é acusado de crime hediondo. Assim, de passagem.
No meio de um nariz de cera gigante (três – ! – páginas) chamando o filme do Lula de feio-bobo-chato, César Benjamin, num tour-de-force dramatúrgico, conta histórias de cárceres e encarcerados, disserta sobre as coisas boas e ruins do homem, o drama das situações limite, etc etc.
Isso tudo só pra pincelar, ali, no meio de seu texto, como quem não quer nada, que, num almoço tido com Lula na campanha presidencial de 1994, o teria ouvido confessar um crime: em 1980, quando preso, tentou violentar um rapaz. Podem me chamar de antiquado, conservador, o que for. Mas sou do tempo em que acusações de estupro envolvendo o presidente da República eram coisa séria.
O esquisito é que tudo parece REALMENTE de caso pensado, com a construção do primeiro caderno planejada de um bom tanto. Desde o fundo dos textos dos colunistas residentes, passando pela indignação de meia pataca em relação ao comercial de papel higiênico. Até a crítica torta em relação ao processo de adaptação cinematográfica de “O filho do Brasil”, culminando no gran finale: a acusação. Publicada ali, no meio de tudo, como uma cereja de bolo jogada no confeite sem querer. E tudo na sexta-feira, com um fim de semana inteiro de jornais pela frente. Não é exagero dizer que há uma tentativa de narrativa nisso aí.
Noves fora a total impossibilidade do afirmado por Benjamin (lugares, personagens e linha do tempo não batem), salta aos olhos a tosqueira pura do troço. É tudo, tudo errado. Método de produção jornalística, posicionamento político-editorial, estrutura editorial-administrativa, já era.
Às vezes, a impressão que dá é que o núcleo de comando da Folha é alocado não nas editorias de política e economia, mas na de entretenimento. Parece que tudo lá é analisado sem muita perspectiva. Como se instituições políticas fossem tendências (ou, na Ilustrada, “trends”), o bem público fosse a defesa dum suposto bom gosto, e as diretrizes econômicas, o ritmo da vez. Quão mais densa a pauta, maior a chinelagem. Então o presidente da República é tratado como a Britney Spears, na lógica do escândalo como lucro (político, econômico, o que for tá bom). O pensamento neocon é estimulado como modismo, algo para impressionar abobados e vender uns livros caça-níqueis sem vergonha.
Não acho que o problema maior é Cesar Benjamin, sujeito com história antiga de militância, preso na ditadura, metido em entreveros aqui e ali esquerda afora. De quem o conhece, já escutei muita coisa: uns dizem que anda fora da casinha; outros, que o ressentimento com o PT chegou ao limite. Dane-se. Se não fosse ele, encontrariam algum outro.
O problema é a falência disso tudo: imprensa, jornalismo, política, memória, senso de noção.
Pelo menos os escândalos da Britney costumam fazer mais sentido.