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notas sobre sacco

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Era fim de 2003, começo de 2004 quando descobri Joe Sacco. Na época, eu trabalhava pro Fórum Social Mundial, traduzia e processava análises políticas e informes levantados por entidades civis e grupos ativistas do mundo todo.

Foi ali que conheci uma história das coisas que nunca arranhava a superfície dos jornais. Entendi os caminhos que transformam um fato em uma ou outra notícia. Li pensadores que me mostravam uma perspectiva completamente nova do mundo, assentada em registros empoeirados, trancados dentro das gavetas.

Joe Sacco fazia tudo isso em quadrinhos. E quando conheci o trabalho dele fiquei absolutamente transtornado, foi um daqueles momentos de iluminação com luz de vitral e coral de anjos. Porque quadrinhos são, sei lá, a única paixão que me acompanha pela vida toda além do Palmeiras.

Dia desses, rolou numa livraria aqui perto de casa uma palestra dele. Então fui lá, anotei alguns trechos interessantes, e resolvi dividir com todo mundo.

Joe Sacco
(foto picareta de celular)

Sobre quadrinhos, narrativa e jornalismo

“Um dos motivos pelos quais HQs são um grande meio para a narrativa jornalística está na possibilidade de elaborar detalhes gráficos que realcem aspectos do que é contado. No texto escrito, essa ênfase nos detalhes visuais é mais complicada.

“HQs permitem transições temporais fluidas – numa mesma narrativa, sem rupturas, uma história pode ir ao passado e voltar ao presente sem dificuldades. É um recurso bastante interessante para a compreensão de contextos históricos.

“O fato de desenhar ajuda bastante quando estou fazendo alguma reportagem num país de língua estrangeira. Quando fiz Notas sobre Gaza, levei na bagagem o Palestina. E mostrava o livro antes de entrevistar as pessoas, assim elas podiam entender o que eu estava fazendo lá. Se fosse um livro textual em uma língua que o entrevistado não dominasse, isso não funcionaria.

“Há um cartunista, Nagi al-Ali, que é considerado um ícone da resistência pelo povo da Palestina. Ele foi morto num atentado em Londres, nos anos 80 (n. ed.: Nagi al-Ali foi assassinado num atentado a tiros, em Londres, em 1987), e seus desenhos são até hoje estampados nas paredes das cidades, ele é muito querido. Quando mostrava meus quadrinhos para as pessoas, existia uma espécie de remissão, relacionavam meu trabalho com as coisas que ele fazia. Isso ajudava a quebrar o gelo.

“Meu traço ganhou contornos mais realistas pela necessidade, o trabalho jornalístico acabou pedindo que fosse assim. Na verdade, gosto mais de desenhar com o traço solto, de forma mais cartunesca.”

Sobre autores e sua formação política

“Christopher Hitchens, Edward Said e Noam Chomsky foram autores essenciais à minha formação política. Me deram uma nova perspectiva sobre o Oriente Médio, com eles conheci um panorama completamente diferente do construído pela mídia dos EUA.”

Sobre Palestina

“O trabalho feito em Palestina seria, hoje, bem mais complicado. Atualmente há espiões israelenses que se passam por jornalistas, o que gera um clima de desconfiança. A situação é bem mais violenta.

Palestina foi feito com um orçamento bastante curto. Comia em bancas de falafel e dormia em hostels – que não são exatamente o melhor ambiente para trabalhar em suas notas depois de um dia cheio de entrevistas. Basicamente, voltei pra casa quando o dinheiro acabou.”

Sobre o processo criativo

“Meu processo criativo não segue uma rotina rígida – às vezes passo mais tempo trabalhando no roteiro, às vezes o desenho acaba demorando mais. De todo modo, durante a produção de um livro faço uma média de nove a dez páginas por mês.

“Tiro muitas fotos – até porque desenhar cada localidade demoraria tempo demais. E sou rígido no que diz respeito a, toda noite, manter um diário sobre tudo que passei ao longo do dia, existem detalhes que, sem isso, poderiam ser perdidos. Tento, também, durante as entrevistas fazer “perguntas visuais”, questões que ofereçam, por parte do entrevistado, estímulos gráficos que possam ser aproveitados na construção das HQs.”

Sobre pagar as contas

“Meus livros foram quase todos bancados do próprio bolso. Apenas no mais recente, Notas sobre Gaza, consegui um contrato editorial. E mesmo assim o dinheiro durou apenas dois anos, bem menos tempo do que o necessário para um trabalho como esse.

“Vivo de palestras, histórias encomendadas (fiz algumas para o The Guardian que renderam um bom dinheiro) e, mais recentemente — agora que meus livros estão vendendo bem — de royalties.”

Sobre objetividade jornalística

“Me incluo nas narrativas para que o leitor tenha claro que aquilo é apenas o meu ponto de vista, faço parte da história. Quero que lembrem que há alguma subjetividade ali.”

Sobre as coisas por vir

“Meu próximo projeto é sobre os EUA que não vão bem. Estou trabalhando com outro jornalista, e visitamos as regiões mais pobres e esvaziadas do país, como as áreas de mineração de carvão.”

Sobre bom senso na cobertura de conflitos

“Sou bastante cuidadoso em minhas reportagens, não corro riscos desnecessários.”

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Written by Tiago Soares

julho 13, 2011 at 4:25 pm

Publicado em nada

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2 Respostas

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  1. Ué, e pq vc não fez perguntas? o.O

    vanessa prates

    julho 14, 2011 at 9:58 pm

    • Não tive como – levantei a mão com mais um monte de gente, mas só escolheram 5 ou 6.

      E não fui uma das mãos escolhidas, e fiquei de fora.

      Tiago Soares

      julho 14, 2011 at 10:12 pm


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