el estupendo grouchomarxista

viejos chistes y actualidades selectas

a era das revoluções do sofá

com 5 comentários

Às vezes a semana começa com o noticiário em chamas, é abrir o jornal e ouvir trombetas e as ruas colocando as rodas da história pra girar. Não importa muito o motivo — crises econômicas, desastres ambientais, ataques de ninjas –, é nessas horas que a imprensa organiza a bagunça de informações e presta aquele serviço esperto pra sociedade.

Segunda-feira agora (11/4), por exemplo, o Brasil parou. O noticiário político se mobilizou e comunicou à nação que FHC teria no forno um artigo pra resolver toda essa parada aí da oposição andar levando sova do PT.

O louco é que todas as notas e reportagens e análises sobre o artigo falam, na real, de algo que até então não havia circulado nos espaços de informação tradicionais. A única coisa dita era que o texto sairia alguns dias depois, na mesma semana, na Folha. E, logo mais, numa outra publicação, a revista Interesse Nacional.

***

É meio estranho ver redações dando pitacos sobre uma parada que ainda não teria visto a luz dos jornais. Normalmente, antes de cair no debate público, um texto desses faz um percurso que passa, obrigatoriamente, pela circulação nos veículos de comunicação tradicionais. Para além do registro e investigação dos fatos do mundo, o trabalho da imprensa como organizadora social tem a ver, também, com a construção de espaços de credibilidade que assentem as ideias que disputam o dia. Há quem diga que, numa sociedade vidrada no poder que os veículos de comunicação projetam, uma ideia só é uma ideia depois de carimbada pela imprensa.

Na verdade, embora os jornais não avisassem, o artigo de FHC já andava circulando na miuda. Desde a mesma segunda-feira, o povo que curte uma sociologia efeagáceana podia ler o texto no Blog do Noblat, que teria “vazado” a íntegra e furado geral. Dá pra acreditar que o artigo já estivesse rolando nas redações por aí e o Noblat tenha só chutado a bola quicando na pequena área. Mas na real é muito mais bacana enfiar uma teoria de conspiração no meio.

***

Olha só: um dos pontos centrais da argumentação de FHC gira em torno do PSDB assumir aquele espírito leite-com-pera batuta, deixar de lado a disputa pelo voto do povão e partir com tudo pra cima da “nova classe média”. O que, se entendi direito, em parte se arrumaria com a reestruturação dos partidos e das organizações civis como agremiações no ciberespaço, num esforço pra conquistar corações e mentes da galera que anda tirando uma grana extra e fica o dia inteiro nas redes sociais, se acabando no Twitter e no Yahoo Respostas.

Tipo, rua já era. O futuro é a revolução do sofá.

***

A verdade é que FHC tá todo animadão em disputar politicamente o ciberespaço. Coisa na qual dá uma dentro – se para as massas as formulações ideológicas usualmente se realizam nos veículos de mídia tradicionais, é na internet que a disputa come solta e a informação é circulada e desconstruída em primeira mão. Não à toa, ele tá se puxando pra colocar na rua um site juntando os formuladores da oposição, numa tentativa de volume pro projeto tucano nos espaços de debate online.

Nesse sentido, o “vazamento” de seu artigo pelo Blog do Noblat (risco de barrigada e tudo) talvez seja um laboratório dessa nova estratégia. Se encaixaria de um tanto no defendido por FHC: ao mesmo tempo que a tal nova classe média seria cooptada discutindo o texto num blog (e o multiplicando a partir daí), os jornalistas bateriam o bumbo e empedrariam a proposta no debate público, deixando mais pra frente sua publicação pelos veículos tradicionais — com aquele carimbo simbólico de “ideia oficialmente em discussão” e tal.

Claro que se o artigo não falasse tanta groselha e não levasse tanto pau talvez o plano funcionasse melhor.

***

Só pra constar: FHC é chapa do Manuel Castells, um dos all stars ideólogos da nova sociedade da informação.

Escrito por Tiago Soares

abril 14, 2011 às 12:10 am

Publicado em nada

Etiquetado com , , , ,

5 Respostas

Assinar os comentários com RSS.

  1. Nosso querido monarca boca de suvaco poderia lançar seu portal disponibilizando as digitalizações do IFHC que captaram muito mais verba que o blogue da Bethânia!

    No mais, é isso mermo. A revolução vai até o muro do condomínio.

    Claudio

    abril 14, 2011 em 3:06 pm

  2. É o clássico retorno daquele que já foi tarde e deveria ter ficado na moita.

    E, para contribuir com o escracho (para a alegria dos não amigos de FHC), veja ai o post:

    http://tabnarede.wordpress.com/2011/04/13/fhc-e-a-%e2%80%9cnovidade%e2%80%9d-das-redes-sociais/

    Sobre a capacidade de falar daquilo que não sabe

    Livia Botin

    abril 14, 2011 em 3:28 pm

  3. [...] leitores de Tabnarede (e d’el estupendo grouchomarxista também) já tiveram oportunidade de debater o artigo de FHC na semana passada. Apenas com intuito [...]

  4. “Mas na real é muito mais bacana enfiar uma teoria de conspiração no meio.” — sempre, né, esquerdinha. Sempre. ;)

    Eu entendo que o texto não é sobre o artigo em si, mas sobre como ele, ao que me parece, legitimamente e com boa estratégia, circulou “na miúda” antes de ser publicado. Ok, é um tema. Agora, dizer que ele fala groselha é apertar a campainha e sair correndo. Sustente, menino. Você indicou um link, sim. Mas o texto referido não fala sobre a groselha do conteúdo do artigo, e sim que a tática do FHC saiu pela culatra. Cadê a groselha?

    Outra coisa: “rua já era”; pois é, não é bem isso. Mas perca essa tentação de sair com plaquinha na rua, porque isso não é uma lei da manifestação política. A internet já está vencendo e vai vencer esses métodos truculentos em breve, em prol do diálogo. E o pior é que eu aposto que você concorda comigo ontologicamente e axiologicamente quanto a isso — só lançou uma ironiazinha pra jogar pra torcida.

    DELAYNE

    novembro 6, 2011 em 4:44 pm

    • Amigo, pra dar o pontapé inicial no papo: começou o comentário mandando um “esquerdinha” acho que perde um pouco a moral pra cobrar compostura na tiração de onda.

      Agora, sobre falar groselha eu poderia fazer um resumo do que as editorias políticas tinham levantado na época (um pedaço razoável da oposição achando que o artigo tinha sido um tiro no pé e que assumir esse descolamento com a militância tradicional não ornava e tal).

      Só acho que quando o líder da oposição escreve um artigo de fundo tático e desarticula o que restava da oposição já zoada dá pra dizer que o texto tem sua justa carga de groselha sim. Nem quis entrar no mérito conceitual, porque é óbvio que aquilo não é minha praia — e é lógico que não dá pra dizer que é mal executado. Mas sustento que o fundo é equivocado numa boa — é desenhado a partir de um universo classe média meio niveladão deixando de fora um mundo de complexidade quando o assunto é o Brasil.

      Mas na hora eu simplesmente não estava a fim de entrar nesse mérito, porque era uma análise conjuntural quente e minha preocupação era entender essa rearticulação das forças políticas da oposição nesses novos eixos.

      Agora, no artigo existe sim essa coisa de apontar a militância da rua como algo cujo fim tem data marcada. E nisso rola essa coisa de achar que circuitos de informação vão se fundir nos circuitos de mobilização política que é, na minha opinião, um dos grandes equívocos de toda essa análise.

      Enfim, é a minha opinião e a minha tiração de onda. E se te incomoda desse tanto, sinto muito. Mas eu tenho este blog justamente pra isso né.

      Enfim, de todo modo valeu mesmo pelo comentário – é sempre mais bacana debater com quem tem outra opinião e tal. Volte sempre.

      Tiago Soares

      novembro 6, 2011 em 5:26 pm


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.