o horror, o horror (ou “por que filmes de zumbi são o que há”)

Talvez tenha a ver com a falta de fé no processo civilizatório, com o estrago causado pela colonização e as guerras e as criancinhas famintas. Talvez seja o manto do fim do mundo se estendendo sobre o pessoal de pouca fé. Talvez a humanidade simplesmente não funcione. Vai saber. O fato é que num mundo onde o jornal do café da manhã te saúda com velhinhas acorrentadas e desmoronamentos em bairros miseráveis, qualquer coisa que pretenda te fazer pular da cadeira tem que ter a temperatura um pouco mais alta que o normal.

Não que tenha sido assim desde sempre. Faz tempo que o termostato vem subindo. Levamos, sei lá, uns dois séculos até a conta do gás começar a preocupar. E do mal puro, mágico, arquetípico, sedimentado – na Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, e adelante no Dracula de Bram Stoker e no Chthulhu de H. P. Lovecraft – passamos ao horror domesticado pela ciência. Construímos o inferno e sua falta de sentido nas trincheiras, bombas atômicas e campos de concentração das Grandes Guerras.

Depois que a humanidade inventou sua própria narrativa do fim do mundo – assim, quase de brincadeira (afinal, continuamos todos aqui) – o horror, talvez numa mostra de domínio da ciência sobre os terrores visíveis e invisíveis, some. Até o fim dos anos 60, o jogo parece reduzido ao medo do experimento científico que deu errado, ou à própria cabeça de uma humanidade que não andou se comportando muito bem. Mas nem todas as aranhas gigantes do mundo e psicopatas catalogados deram fim à nostalgia do tempo em que os calafrios não precisavam fazer sentido, quando agiam a serviço do mito, nos lembrando de tomar cuidado com as coisas que se escondiam no escuro. E não nos esquecíamos daqueles contos de antigamente, quando o horror era apenas fantástico e nos lembrava de grandes possibilidades esquecidas.

Talvez a história tenha virado nos anos 60 com a onda oriental-mística dos hippies, quando a teoria esotérica encontrou a psicologia e nos fez lembrar do que achávamos tão legal no Mr. Hyde de R. L. Stevenson. Do mesmo modo como em O médico e o monstro o estrago é causado pelo encontro da medicina com doutrinas mágicas vitorianas, coisas como O exorcista e O bebê de Rosemary têm seu motor no casamento do misticismo com a psicologia. O horror técnico, da máquina que não funciona, de cérebros e reatores nucleares descalibrados, dá um passinho atrás. Voltamos a nos fascinar com o incompreensível por si só. Com o que não é do nosso mundo e pronto.

É curioso que, de mãos dadas com o medo místico dos anos 60 e 70, andasse o horror natural. As convulsões de mundos invisíveis parecem nos lembrar, em obras como Tubarão – e em seu primo, o filme catástrofe –, do medo do nosso próprio mundo. Como se nossa impotência diante dos desígnios ocultos nos despertassem para o fantástico e para a aparente falta de sentido gestada pela natureza.

Como consequência extrema disso tudo, daria até pra arriscar um subproduto extra, o terror social. Ali, o medo seria alimentado também por um outro mundo – agora, alimentado pelo descompasso de costumes. Em vez do fantástico, a selvageria que se esconderia nos pontos cegos da civilização, fora do espectro urbano. Como nas famílias de caipiras esquisitões de Spider Baby e o Massacre da serra elétrica.

Daí, não demorou para que tudo pulasse à matança slasher; à narrativa sobre psicopatas despida de leitura sobre motivos ou consequências, na total falência do mito. Na estrita contagem de machadadas por tempo percorrido, corpos empilhados como garantia de eficiência. Sem curiosidade, sem indagações, sem fantasia. Medo sob encomenda, a vitória da cultura da fábrica.

Claro, a história não para por aí. Dos anos 80 pra cá, tudo se misturou de um bom tanto. O terror místico se casou com o slasher, o horror natural usa gatilhos psicológicos, a ciência que deu errado desvela fantasmas. E apesar de às vezes nos reaproximarmos dos clássicos, a fantasia deu lugar ao entretenimento dos sustos previsíveis – ou ao puro sadismo. Nosso domínio dos códigos do horror nos deixou cansados, insensíveis e céticos. Talvez esteja aí um dos motivos da ascensão do torror oriental – nosso desconhecimento da cultura dos povos do outro lado do mundo nos deixa livres para sentirmos medo, e simplesmente imaginar. No descobrimento dos temores alheios, mapeamos possibilidades, especulamos novos mundos. Marco Polo deve ter se sentido mais ou menos assim.

temei os anjos vingadores

Depois dos 30 finalmente li um livro do Sherlock Holmes ali, de acordo.

E, cara, os mórmons ninjas psicopatas do tio Conan Doyle em A study in scarlet são deveras mais bacanas que os bundões Opus Dei do Código da Vinci.

Leiam os clássicos, crianças.

fazendo o simples

E vamos precisar que o texto migre pro digital, e que as árvores não sejam tantas assim, e que os álbuns com letras e desenhos sejam feitos em bom papel, e apreciados, e experimentados com dois sentidos ou mais.

Aí os quadrinhos serão entendidos art mesmo.

E as letras e as cores e seus balões terão, em cada gibi, o valor que sempre soubemos ter.

Assim disse tio Stan Lee.

reinventando a banana

“Aos não apresentados ao Record Club, trata-se de um encontro informal entre varios músicos para gravar um álbum por semana. Um disco é escolhido para ser reinterpretado e usado como plataforma. Nada é ensaiado nem arranjado previamente. E uma faixa é publicada online a cada semana” A explicação é do Beck, pro disco desta semana. Mas a usarei pro álbum da semana passada.

O lance é que Beck regravou, nos termos explicados aí em cima, o disco da banana.

Bom, eu sei, e acho que você também, que o The Velvet Underground and Nico é um disco deveras esquisito. Bem por conta disso, nem era o caso de se esperar na regravação algo pra bater palminha junto – logo no começo, já dá pra sacar que não rola.

Na verdade, o disco é quase um estudo sobre o original. Não à toa, de vez em quando dá aquela impressão de que algo foi um pouco pensado demais. O lado bom é que, quando é pensado, é BEM pensado.

O esqueleto conceitual é examinado e chacoalhado. Minimalismo, experimentação, a engenharia de produção tratada quase como um suporte, é tudo tocado, trabalhado, executado em novas chaves.

Lógico, o princípio do projeto acaba trespassando a coisa toda com uma espécie de urgência, quase resvalando a chinelagem. A diferença é que, no caso da regravação, a urgência é urgência mesmo: os caras gravam tudo num dia. Diferente da urgência do Velvet, que, ensaiada e pensada e feita e de novo, retocava cada aspereza para que parecesse suja do jeito certo.

Enfim, esquisto, bacana, vale. Até pelo projeto, que é bem classe — agora, o disco da vez é o Songs of Leonard Cohen.

Mas eu já falei demais. Vai lá e tira a tua prova.

CLASSE

Porque zumbi é que nem requeijão – fica bom com tudo.

toc toc

Há um tempão ganhei a sorte grande numa venda de garagem.

O dono dos móveis tava animadão, no pique de dar uma poltrona velha e uns cacarecos pro pessoal de nossa república.

O prêmio era uma fita cheia de clipes esquisitos. Na versão do dono da parada, “bandas que tinham tentado a sorte no Big Day Out, e se dado mal”.

Uma poltrona vazia e a noção de umas bandas boas. Sim senhores.

A poltrona explodiu, e os arames abriram um talho em minha perna.

O som encontrou seu caminho. E, bom, acho que anda por lá até hoje.

E juro que este clipe tava na roda. Verdade mesmo.

agora vai

Cara, preciso voltar a escrever.

Sim senhores. Sim senhoras.

qual é a música, camaradas?

Vitória do socialismo real.

Da BBC:

China proíbe cantores de dublar em shows e programas de TV

O governo da China proibiu o uso de dublagem em apresentações públicas de cantores.

A técnica é muito utilizada no país e consiste em tocar uma música pré-gravada durante uma apresentação, enquanto artistas e músicos fingem que estão tocando os instrumentos e cantando. A diretriz do Partido Comunista foi emitida em meados de novembro, mas agora, com a chegada das celebrações de fim de ano, as autoridades reforçaram a proibição, em particular na indústria do entretenimento.

(…)

De acordo com o site de notícias sobre a China www.china.org.cn, autoridades da Administração Estatal de Rádio, Filme e Televisão (SARFT, na sigla em inglês) reforçaram que os artistas que se apresentam nos shows de fim de ano precisam ser “cantores de verdade” e que as letras das músicas têm que ter um conteúdo “saudável”.

“Primeiramente, tenha o ‘cantar-de-verdade’ como sua prática padrão e escolha apenas os artistas que podem realmente cantar. Ponha, firmemente, um ponto final à dublagem”, afirmou o oficial da SARFT Zhao Huayong num comunicado publicado no site do departamento.

Segundo o governo, “usar canções e músicas pré-gravadas para substituir o canto ao vivo” é “enganar a audiência” e quem for pego dublando será “punido”.

Sete notas, maestro

senso de noção

Roberto Justus lançou seu primeiro CD. Músicas românticas.

Sai pela Sony BMG.

Aí as majors vão mal das pernas e a culpa é do povo que baixa música na internet.

macanudo!

Liniers é foda.

(Na verdade, a tira que tava aí em cima era outra, tirando onda de redes sociais. Mas o La Nacion quebrou o link, e não a encontro de jeito nenhum. Então troquei o quadrinho, mas não importou muito. Porque Liniers é foda.)