24 horas
é como se minha responsabilidade profissional corresse uma maratona senhoras e senhores.
e ela está cambaleando e se arrastando rumo à linha de chegada com muito esforço e força de viver e a plateia vibra que espetáculo bonito.
“é uma inspiração para a família”, dizem; os jovens falam “vc é um modelo é um exemplo na vida”.
aí minha responsabilidade profissional fala “ora o que é isso apenas fazendo meu trabalho”.
michael myers chorou
Zombie Zombie é um duo francês que faz música eletrônica inspirada em filmes de terror e explotaition oitentista.
Alan Howarth é compositor, parceiro musical de John Carpenter em clássicos tipo “Fuga de Nova Iorque”, “Christine” e “Os aventureiros do bairro proibido”.
Um dia eles se reuniram pra tocar o tema de Halloween. É o video que tá aí em cima.
notas sobre sacco
Era fim de 2003, começo de 2004 quando descobri Joe Sacco. Na época, eu trabalhava pro Fórum Social Mundial, traduzia e processava análises políticas e informes levantados por entidades civis e grupos ativistas do mundo todo.
Foi ali que conheci uma história das coisas que nunca arranhava a superfície dos jornais. Entendi os caminhos que transformam um fato em uma ou outra notícia. Li pensadores que me mostravam uma perspectiva completamente nova do mundo, assentada em registros empoeirados, trancados dentro das gavetas.
Joe Sacco fazia tudo isso em quadrinhos. E quando conheci o trabalho dele fiquei absolutamente transtornado, foi um daqueles momentos de iluminação com luz de vitral e coral de anjos. Porque quadrinhos são, sei lá, a única paixão que me acompanha pela vida toda além do Palmeiras.
Dia desses, rolou numa livraria aqui perto de casa uma palestra dele. Então fui lá, anotei alguns trechos interessantes, e resolvi dividir com todo mundo.
Joe Sacco
(foto picareta de celular)
Sobre quadrinhos, narrativa e jornalismo
“Um dos motivos pelos quais HQs são um grande meio para a narrativa jornalística está na possibilidade de elaborar detalhes gráficos que realcem aspectos do que é contado. No texto escrito, essa ênfase nos detalhes visuais é mais complicada.
“HQs permitem transições temporais fluidas – numa mesma narrativa, sem rupturas, uma história pode ir ao passado e voltar ao presente sem dificuldades. É um recurso bastante interessante para a compreensão de contextos históricos.
“O fato de desenhar ajuda bastante quando estou fazendo alguma reportagem num país de língua estrangeira. Quando fiz Notas sobre Gaza, levei na bagagem o Palestina. E mostrava o livro antes de entrevistar as pessoas, assim elas podiam entender o que eu estava fazendo lá. Se fosse um livro textual em uma língua que o entrevistado não dominasse, isso não funcionaria.
“Há um cartunista, Nagi al-Ali, que é considerado um ícone da resistência pelo povo da Palestina. Ele foi morto num atentado em Londres, nos anos 80 (n. ed.: Nagi al-Ali foi assassinado num atentado a tiros, em Londres, em 1987), e seus desenhos são até hoje estampados nas paredes das cidades, ele é muito querido. Quando mostrava meus quadrinhos para as pessoas, existia uma espécie de remissão, relacionavam meu trabalho com as coisas que ele fazia. Isso ajudava a quebrar o gelo.
“Meu traço ganhou contornos mais realistas pela necessidade, o trabalho jornalístico acabou pedindo que fosse assim. Na verdade, gosto mais de desenhar com o traço solto, de forma mais cartunesca.”
Sobre autores e sua formação política
“Christopher Hitchens, Edward Said e Noam Chomsky foram autores essenciais à minha formação política. Me deram uma nova perspectiva sobre o Oriente Médio, com eles conheci um panorama completamente diferente do construído pela mídia dos EUA.”
Sobre Palestina
“O trabalho feito em Palestina seria, hoje, bem mais complicado. Atualmente há espiões israelenses que se passam por jornalistas, o que gera um clima de desconfiança. A situação é bem mais violenta.
“Palestina foi feito com um orçamento bastante curto. Comia em bancas de falafel e dormia em hostels – que não são exatamente o melhor ambiente para trabalhar em suas notas depois de um dia cheio de entrevistas. Basicamente, voltei pra casa quando o dinheiro acabou.”
Sobre o processo criativo
“Meu processo criativo não segue uma rotina rígida – às vezes passo mais tempo trabalhando no roteiro, às vezes o desenho acaba demorando mais. De todo modo, durante a produção de um livro faço uma média de nove a dez páginas por mês.
“Tiro muitas fotos – até porque desenhar cada localidade demoraria tempo demais. E sou rígido no que diz respeito a, toda noite, manter um diário sobre tudo que passei ao longo do dia, existem detalhes que, sem isso, poderiam ser perdidos. Tento, também, durante as entrevistas fazer “perguntas visuais”, questões que ofereçam, por parte do entrevistado, estímulos gráficos que possam ser aproveitados na construção das HQs.”
Sobre pagar as contas
“Meus livros foram quase todos bancados do próprio bolso. Apenas no mais recente, Notas sobre Gaza, consegui um contrato editorial. E mesmo assim o dinheiro durou apenas dois anos, bem menos tempo do que o necessário para um trabalho como esse.
“Vivo de palestras, histórias encomendadas (fiz algumas para o The Guardian que renderam um bom dinheiro) e, mais recentemente — agora que meus livros estão vendendo bem — de royalties.”
Sobre objetividade jornalística
“Me incluo nas narrativas para que o leitor tenha claro que aquilo é apenas o meu ponto de vista, faço parte da história. Quero que lembrem que há alguma subjetividade ali.”
Sobre as coisas por vir
“Meu próximo projeto é sobre os EUA que não vão bem. Estou trabalhando com outro jornalista, e visitamos as regiões mais pobres e esvaziadas do país, como as áreas de mineração de carvão.”
Sobre bom senso na cobertura de conflitos
“Sou bastante cuidadoso em minhas reportagens, não corro riscos desnecessários.”
***
(Sei que talvez eu seja passional demais com essa coisa toda. Mas por que catzo toda vez que um quadrinista monstro como Joe Sacco aparece por aqui arrumam uns mediadores preguiçosos e completamente sem noção de quadrinhos pra entrevistar os caras? Foi assim com Crumb ano passado, e foi assim este ano com Sacco. O sujeito é quadrinista, quer falar sobre o HQs e suas possibilidades narrativas, e só perguntam sobre trivialidades e assuntos nada a ver. Tá certo que Sacco é um jornalista-autor-quadrinista, então rolam três frentes aí pra cobrir. Agora, se não tem ninguém por aqui que manje o suficiente pra sabatinar o cara, monta uma força-tarefa cacete. Porque eu queria saber sobre as coisas que mais o influenciaram na linguagem das HQs, de sua opinião sobre as narrativas históricas de quadrinistas como Eisner e Kubert, sobre as invenções do underground americano dos 60/70 e dos quadrinhos políticos europeus, sobre novos quadrinistas que esteja acompanhando. E nada. Ninguém chegou nem perto disso amigos. Entrevistar quadrinistas a respeito de seu trabalho e não perguntar sobre quadrinhos é errado. E é isso.)
patrulha patrulha
Do Gran Clipart
(Fato curioso: cada um dos 3 quadrinhos é um chiste com alguma coisa vista na minha vida de militância)
feliz feliz, alegre alegre
Do G1
Aécio Neves tem habilitação apreendida em blitz da Lei Seca no Rio
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) teve a carteira de habilitação apreendida por estar com o documento vencido e por se recusar a fazer o teste do bafômetro numa Operação Lei Seca na Avenida Bartolomeu Mitre, no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Aécio foi parado na blitz na madrugada deste domingo (17). As informações são da Secretaria de Estado de Governo do Rio.
De acordo com a Secretaria de Governo, Aécio Neves foi multado. O senador não teve o carro apreendido, pois apresentou um condutor habilitado, e foi liberado.
(…)
(foto reproduzida do Blog do Décio)
a era das revoluções do sofá
Às vezes a semana começa com o noticiário em chamas, é abrir o jornal e ouvir trombetas e as ruas colocando as rodas da história pra girar. Não importa muito o motivo — crises econômicas, desastres ambientais, ataques de ninjas –, é nessas horas que a imprensa organiza a bagunça de informações e presta aquele serviço esperto pra sociedade.
Segunda-feira agora (11/4), por exemplo, o Brasil parou. O noticiário político se mobilizou e comunicou à nação que FHC teria no forno um artigo pra resolver toda essa parada aí da oposição andar levando sova do PT.
O louco é que todas as notas e reportagens e análises sobre o artigo falam, na real, de algo que até então não havia circulado nos espaços de informação tradicionais. A única coisa dita era que o texto sairia alguns dias depois, na mesma semana, na Folha. E, logo mais, numa outra publicação, a revista Interesse Nacional.
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É meio estranho ver redações dando pitacos sobre uma parada que ainda não teria visto a luz dos jornais. Normalmente, antes de cair no debate público, um texto desses faz um percurso que passa, obrigatoriamente, pela circulação nos veículos de comunicação tradicionais. Para além do registro e investigação dos fatos do mundo, o trabalho da imprensa como organizadora social tem a ver, também, com a construção de espaços de credibilidade que assentem as ideias que disputam o dia. Há quem diga que, numa sociedade vidrada no poder que os veículos de comunicação projetam, uma ideia só é uma ideia depois de carimbada pela imprensa.
Na verdade, embora os jornais não avisassem, o artigo de FHC já andava circulando na miuda. Desde a mesma segunda-feira, o povo que curte uma sociologia efeagáceana podia ler o texto no Blog do Noblat, que teria “vazado” a íntegra e furado geral. Dá pra acreditar que o artigo já estivesse rolando nas redações por aí e o Noblat tenha só chutado a bola quicando na pequena área. Mas na real é muito mais bacana enfiar uma teoria de conspiração no meio.
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Olha só: um dos pontos centrais da argumentação de FHC gira em torno do PSDB assumir aquele espírito leite-com-pera batuta, deixar de lado a disputa pelo voto do povão e partir com tudo pra cima da “nova classe média”. O que, se entendi direito, em parte se arrumaria com a reestruturação dos partidos e das organizações civis como agremiações no ciberespaço, num esforço pra conquistar corações e mentes da galera que anda tirando uma grana extra e fica o dia inteiro nas redes sociais, se acabando no Twitter e no Yahoo Respostas.
Tipo, rua já era. O futuro é a revolução do sofá.
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A verdade é que FHC tá todo animadão em disputar politicamente o ciberespaço. Coisa na qual dá uma dentro – se para as massas as formulações ideológicas usualmente se realizam nos veículos de mídia tradicionais, é na internet que a disputa come solta e a informação é circulada e desconstruída em primeira mão. Não à toa, ele tá se puxando pra colocar na rua um site juntando os formuladores da oposição, numa tentativa de volume pro projeto tucano nos espaços de debate online.
Nesse sentido, o “vazamento” de seu artigo pelo Blog do Noblat (risco de barrigada e tudo) talvez seja um laboratório dessa nova estratégia. Se encaixaria de um tanto no defendido por FHC: ao mesmo tempo que a tal nova classe média seria cooptada discutindo o texto num blog (e o multiplicando a partir daí), os jornalistas bateriam o bumbo e empedrariam a proposta no debate público, deixando mais pra frente sua publicação pelos veículos tradicionais — com aquele carimbo simbólico de “ideia oficialmente em discussão” e tal.
Claro que se o artigo não falasse tanta groselha e não levasse tanto pau talvez o plano funcionasse melhor.
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Só pra constar: FHC é chapa do Manuel Castells, um dos all stars ideólogos da nova sociedade da informação.
